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Ausência

A memória de ti está pendurada
Na árvore que ajudaste a semear
Junto ao rio que se afasta da nascente
E dentro de mim
Ficou ermo o santuário
Onde tu entravas para amar
E a minha alma saudava teu corpo
Agora a noite cobre-me esquecida
Do engenhoso afago das tuas mãos.

 
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Publicado por em 4 de Abril de 2012 in Poesia

 

Envelheci

Envelheci …
A dor abriu sulcos no meu peito
O pranto coloriu de negro o meu rosto
Quando a felicidade murchou
Quando se quedou o som da tua voz
Quando de nós restava apenas o vazio
Envelheci …
Olhei-me ao espelho e vi a tua sombra
Com o pesado silêncio a rir-se de mim
E deixei de compreender o que senti.

 
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Publicado por em 4 de Abril de 2012 in Poesia

 

Os desconhecidos


Falamos deles com indiferença ou temor e, por vezes, até repugnância, tingida de moléstia. Eles, um vasto e obscuro grupo de desconhecidos, povoam o mesmo espaço que nós e contudo ficam encerrados num cubículo cuja chave preferiríamos deitar fora sem nos darmos conta que seria um erro irreparável. Eles, ainda sem rosto ou alma, poderão ser a resposta para as nossas dúvidas, o bálsamo para as nossas mazelas, o aconchego para as nossas fraquezas e a nascente onde iremos sorver o elixir da nossa fortuna. Mas isso é ilusório para nós, de tão consumidos que estamos com aqueles a quem demos a honra de fazer parte do meio em que circulamos. Esses, sim, são os eleitos porque julgamos conhecê-los. Não nos molestam ou amedrontam porque podemos prever as suas reacções. Poderão, quando muito, enfastiar-nos pela monotonia que nos faz bocejar e a previsibilidade que nos faz agoniar. Mas isso é incomparavelmente melhor do que a vertigem do incerto. Será?
Alguns desses eleitos não são já mais do que fantasmas a assombrarem os nossos dias, deixando-nos gastos e descoloridos. E, em alguns casos, quer queiramos admiti-lo ou não, causam-nos maior dano do que esses estranhos que tentamos evitar ou aos quais negamos a entrada. O hábito reduz-nos a apáticos e o frágil aconchego do familiar tolhe-nos os movimentos e enevoa-nos a mente, incapacitando-nos, com um senso de enganosa segurança.
Esquecemo-nos facilmente de que todos foram desconhecidos, em tempos que não lembramos, antes de os incluirmos nesse círculo fechado e privado a que chamamos nosso. Fomos nós que lhes mudámos o rótulo, quando julgámos conhecê-los. E agora, alguns desses, a quem vimos o rosto e a alma, deixam-nos abalados e perplexos, roubando-nos a certeza que tínhamos construído acerca deles. Afinal de que nos valeu o conhecimento que julgámos reter como sagrado tesouro? Falhámos? Fomos enganados? Que importa! Determo-nos em especulações deste tipo em nada irá ajudar-nos a sair do marasmo em que nos afundámos.
A chave ainda existe, mesmo que tenhamos de fazer um esforço para a encontrar. Talvez esteja nesse baú onde arremessámos, com enfado, os trastes de uma infância pungente ou o bricabraque de uma adolescência magoada. Talvez esteja entre as peças de um puzzle que nunca tivemos tempo para decifrar. Talvez esteja enferrujada pelas intempéries que devastaram o nosso espírito ou pelas águas turvas das recordações que, a custo, desejamos emudecer. Talvez esteja destorcida ou quebrada no meio do que deixámos por fazer ou do que sempre adiámos. Mas não está perdida.

 
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Publicado por em 31 de Março de 2012 in Crónica

 

Trevas


Na escola, foi difícil manter‐me atenta. O dia despontara a cheirar a Primavera. Sabia as estações pelos cheiros e pelas luzes ou trevas que perpassavam nos rostos dos que via, nos lugares por onde passava. Nessa manhã, não consegui decifrar a ausência de claridade nos olhares dos senhores de fatos cinzentos e gravatas de nós apertados com as faces muito bem barbeadas e cheirosas onde faltavam as marcas da juventude e de beijos. Traziam consigo sorrisos sem graça e não era capaz de os adornar com palavras ou ideias, como se lhes faltasse uma história.
Olhei a nuca escura de Irménia, sentada à minha frente, o cabelo muito preto, de trancinhas a desfazerem‐se, os ombros encolhidos e os cotovelos pregados à carteira. Houve um instante em que o pescoço dela parecia não suportar a cabeça e metade do rosto lançou‐me um grito estrangulado. Eu não podia fazer nada. Ali não se tratava de a salvar das palavras açoites ou dos gestos desprezo dos outros meninos que queriam vê‐la lavada da cor com que nascera. Até o nome lhe dificultava o resgate da sua condição de mestiça. Irménia das Dores era um nome que pesava como as pedras que escondiam tesouros no quintal da patroa da mãe, para onde eu e ela corríamos, nas tardes mornas de Verão. Era um nome curto mas molesto que tolhia os passos da Irménia e a impedia de fugir das mãos sebentas e ávidas do tio com pele de marfim que visitava a mãe, nas horas ociosas de domingo. Só eu sabia das suas dores. Dores que não tinham a ver com o apelido ou com o seu fraco estômago. Sabia mas não compreendia, naquele tempo em que procurava desesperadamente reter a minha inocência.
Naquela manhã de Primavera, eu não podia adivinhar o pavor que salpicava de linhas suadas o rosto negro da minha amiga. O senhor, de casaco traçado com muitos botões e cabelo oleoso colado às fontes, parecia não se importar com o nome pesado e sofrido de Irménia, nem com aquela cor, nódoa de café ou chocolate a querer sair pelas costuras da bata coçada que mal lhe tapava os joelhos.

(In NA MARGEM DO TEU SEGREDO)

 
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Publicado por em 25 de Março de 2012 in Livros, Romance, Texto Literário

 

Há dias assim…

Há dias em que o vazio me aperta
E a solidão sentada comigo desdenha
Do que deixei de acreditar.
Há dias em que desapareço no passado
Cansada de um desgastado esperar.
Há dias em que recordo um alienado amor
Nas horas sumidas pelo impiedoso tempo.
Há dias em que esqueço quem sou
Sem saber o rumo para onde vou.
Há muitos dias assim
Em que me procuro fora de mim.

 
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Publicado por em 19 de Março de 2012 in Poesia

 

Pensamento

Quando sentimos o tempo a mover-se e a afastar-se de uma eternidade imóvel, apavora-nos a brevidade dos amanhãs.

 
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Publicado por em 19 de Março de 2012 in Uncategorized

 

O silêncio do tempo


Recordo o homem que fui sem saber de onde vem a memória, sem reconhecer a sua autenticidade. A ténue possibilidade de ter sido esse homem apresenta-se mais reconfortante do que a realidade de quem sou agora. Digamos que o possível se converte no meu real. O possível é a verdade que desejo aprisionar como minha. Já que nada consigo reter nas mãos que deixaram de acompanhar a linguagem do cérebro. A mente recusa-se a aceitar as manchas e as rugas que traçam um rendilhado insólito na pele ressequida. Os olhos vêem os dedos desenhar movimentos, como se não seguissem a minha vontade. Como se não pertencessem ao resto do corpo.
Talvez esse homem tenha existido apenas na minha imaginação. Mesmo no tempo em que eu me conhecia. Mas não me perguntem que tempo foi esse. Decerto muito longínquo, soterrado nos confins do mundo. Lembro-me vagamente que costumava cogitar se o mundo tem um princípio e um fim. A incerteza do fim era o que me mantinha acordado, certas noites. Pensamentos que deixei de ter há muito. Só não consigo precisar quando. Muito ou pouco, tudo ou nada são hoje quantificações que perderam o interesse. Não sei o que me interessa. Há dias em que julgo interessar-me pela vida, outros em que julgo interessar-me pela morte. Mas neste instante, que poderá durar um milésimo de segundo ou uma eternidade, interesso-me por aquele homem que imagino tenha sido eu. Imaginar é o único jogo praticável. O único prazer.

 
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Publicado por em 19 de Março de 2012 in Conto, Texto Literário

 

Reflexos

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Senta-se à minha frente. É um desconhecido. Ou era. Talvez nunca tenha sido. Agora não posso evitá-lo. A sua presença é real. Já não faz parte da construção do meu pensamento, da ideia que tinha acerca dele. Olho-o e continuo a conjecturar. Escuto as suas palavras, noto as suas expressões, detenho-me nos seus traços e movimentos. Não paro de julgar o que ele é na realidade. Mas que realidade? Aquela que eu percebo na minha inaptidão de conhecer quem quer que seja, ou a realidade que ele me quer mostrar? Mas essa talvez não seja a realidade de que é feito.
Quero sair dali e refugiar-me no espaço que me protege de estranhos que me fazem pensar e duvidar daquela que sou ou julgo ser. Aquele espaço familiar, onde eu posso ser quem sou, sem máscaras ou subterfúgios. Onde eu penso conhecer-me sem que outros me digam quem sou. Quero fechar-me nesse casulo que teci à minha volta. Quero repousar e sentir-me segura. Embora saiba que tudo isso não passa de mais uma das ilusões que me acompanham.
Tento desembaraçar-me da pressão dos seus dedos na minha mão fria. Brinco com o pacotinho de açúcar, deixando o meu interlocutor talvez desapontado. Contudo não desiste, fitando-me com confiança e continuando a falar sobre mim como se me conhecesse. Irrita-me, mas não consigo arredar pé.
O chá a arrefecer, as minhas mãos esquivas e frias, o som cadenciado da voz do homem a meu lado e os pensamentos em catadupa a falarem-me da mulher que eu tinha sido, em tempos. Já nem me lembro quando! E vejo-me noutro café, de uma cidade alheia. Estou em frente de outro desconhecido, as minhas mãos frias e trémulas aconchegadas nas dele e a dor a escorrer nas lágrimas que traçavam valas no meu rosto.

 
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Publicado por em 19 de Março de 2012 in Conto, Texto Literário

 

Vocação

O médico, o cura e o professor eram as pessoas mais importantes, durante os anos em que cresci e outros que se seguiram, até o 25 de Abril ter chegado àquela aldeia beirense. Levou o seu tempo, mas acabou por chegar. Tudo levava o seu tempo a chegar à aldeia.
A bitola para aferir esses homens era o grau da sua vocação. Cuidavam, com zelo, dos corpos, das mentes e dos espíritos, não deixando de largar neles o verme de um disfarçado despotismo.
O cura usava o poder nas dobras da batina, engomada a preceito pela Gracinda, moçoila rechonchuda, que comungava todos os domingos. O Padre Dionísio arregaçava a batina de pregas vincadas para sentir as nádegas frescas e macias da filha do Rufino contra a sua barriga flácida. E o Rufino badalava o sino, durante a Eucaristia, muito sisudo, na envergadura de sacristão, orgulhoso da sua prendada Gracinda. O professor usava o poder no ponteiro e na régua que deixava descair, quando menos esperávamos, e nos punha as palmas das mãos e os traseiros a escaldar ao rubro. O meu pai usava o poder no bastonete polido, que ele empunhava com nobreza, na curta caminhada diária de casa ao consultório, e servia para enxotar os indesejáveis.
Todos eles eram homens bem vocacionados.

 
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Publicado por em 11 de Fevereiro de 2012 in Conto, Texto Literário

 

Entreacto

Repassada do desejo daqueles risos que se perderam e da lembrança dos encantos que nunca chegaram a acontecer, está a casa, palco deserto, onde outrora fantoches ensaiavam uma monótona coreografia. Aí, já não cabem as aparentes histórias nem o som de vidas a fenecer. Ouve-se, somente, o rangido das tábuas do soalho sob os passos das turbulentas memórias. Os segredos adormecem nas sombras, que desenham um retábulo de recortes esfumados, na espessura oca dos tectos negros.
O tempo ficou retido na fuligem que abraça o passado.
Lá fora, as manhãs desafiam a perenidade do momento.

 
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Publicado por em 2 de Fevereiro de 2012 in Conto, Texto Literário

 
 
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