
Falamos deles com indiferença ou temor e, por vezes, até repugnância, tingida de moléstia. Eles, um vasto e obscuro grupo de desconhecidos, povoam o mesmo espaço que nós e contudo ficam encerrados num cubículo cuja chave preferiríamos deitar fora sem nos darmos conta que seria um erro irreparável. Eles, ainda sem rosto ou alma, poderão ser a resposta para as nossas dúvidas, o bálsamo para as nossas mazelas, o aconchego para as nossas fraquezas e a nascente onde iremos sorver o elixir da nossa fortuna. Mas isso é ilusório para nós, de tão consumidos que estamos com aqueles a quem demos a honra de fazer parte do meio em que circulamos. Esses, sim, são os eleitos porque julgamos conhecê-los. Não nos molestam ou amedrontam porque podemos prever as suas reacções. Poderão, quando muito, enfastiar-nos pela monotonia que nos faz bocejar e a previsibilidade que nos faz agoniar. Mas isso é incomparavelmente melhor do que a vertigem do incerto. Será?
Alguns desses eleitos não são já mais do que fantasmas a assombrarem os nossos dias, deixando-nos gastos e descoloridos. E, em alguns casos, quer queiramos admiti-lo ou não, causam-nos maior dano do que esses estranhos que tentamos evitar ou aos quais negamos a entrada. O hábito reduz-nos a apáticos e o frágil aconchego do familiar tolhe-nos os movimentos e enevoa-nos a mente, incapacitando-nos, com um senso de enganosa segurança.
Esquecemo-nos facilmente de que todos foram desconhecidos, em tempos que não lembramos, antes de os incluirmos nesse círculo fechado e privado a que chamamos nosso. Fomos nós que lhes mudámos o rótulo, quando julgámos conhecê-los. E agora, alguns desses, a quem vimos o rosto e a alma, deixam-nos abalados e perplexos, roubando-nos a certeza que tínhamos construído acerca deles. Afinal de que nos valeu o conhecimento que julgámos reter como sagrado tesouro? Falhámos? Fomos enganados? Que importa! Determo-nos em especulações deste tipo em nada irá ajudar-nos a sair do marasmo em que nos afundámos.
A chave ainda existe, mesmo que tenhamos de fazer um esforço para a encontrar. Talvez esteja nesse baú onde arremessámos, com enfado, os trastes de uma infância pungente ou o bricabraque de uma adolescência magoada. Talvez esteja entre as peças de um puzzle que nunca tivemos tempo para decifrar. Talvez esteja enferrujada pelas intempéries que devastaram o nosso espírito ou pelas águas turvas das recordações que, a custo, desejamos emudecer. Talvez esteja destorcida ou quebrada no meio do que deixámos por fazer ou do que sempre adiámos. Mas não está perdida.